New Music International Festival 2013. De 30/11 a 08/12.
Novas Frequências 2013

“É Possível Sondar Uma Poesia Dos Sons Por Eles Mesmo, Sem A Mediação Das Palavras?” por Fred Coelho

O título deste texto é a pergunta que veio junto ao convite para escrevê-lo. Pergunta ampla, diria até inesgotável, pela sua pluralidade de respostas — ou de novas perguntas feitas a partir dela. Porque a pergunta pressupõe uma “poesia dos sons”, isto é, uma experiência estética do campo do poético, porém através da música. E aí, se formos fazer uma genealogia, mesmo que superficial, desse pensamento, sabemos que existe uma origem para a relação orgânica que a música e a poesia têm, desde os tempos mais remotos. Para não sairmos do nosso escopo ocidental e clássico, falemos dos gregos, daqueles que nos legaram a figura do aedo, o poeta que canta, o narrador da tradição que se acompanha com um instrumento. Palavra e som, unidade indivisível, transformam-se em material duplo para o poético.

Ao longo da história, porém, cada arte constituiu um espaço autônomo de ação e reflexão crítica. Poetas tornaram-se os que operam com a palavra — mesmo que a música seja central no seu processo, a partir de ferramentas como o ritmo, a cadência, o som das palavras, a rima etc. O músico, por sua vez, especializa-se na operação dos sons, dentro de um contexto mais específico em que a palavra pode ser prescindível. Afinal, apesar de nosso apego popular pela canção e por sua consonância de letra e melodia, a música se consagrou como grande força da cultura e da arte ocidental através de suas composições eruditas, feitas para músicos — e não para cantores. Se a modernidade foi pontuada pela música clássica e seu íntimo relacionamento com os grandes movimentos estéticos (Barroco, Romântico etc.), o século XX retoma o lugar intenso e originário do poeta que faz música na figura pop do letrista. Com frequência, aliás, letristas tornam-se poetas (ou suas letras são alçadas ao mesmo espaço estético da poesia) e poetas tornam-se letristas (ou têm suas poesias sonoramente adaptadas por compositores).

E como pensar o lugar do poético nos sons contemporâneos? Principalmente daqueles sons decorrentes da revolução tecnológica e da ampliação radical da experimentação sonora no âmbito de uma cultura musical exigente por parte de pares e público? O quão de “poético” alimenta as produções ligadas aos nomes que estão no Novas Frequências deste ano e dos outros dois anos anteriores? Talvez, possamos partir do princípio livre — e libertário — de que “poético” tornou-se uma palavra polissêmica e saudavelmente imprecisa, que cada vez mais a crítica e o senso comum aplicam para definir impactos sensoriais decorrentes de nossas experiências estéticas. A crítica de arte usa com cada vez mais frequência a “poética” como termo que nos permite alcançar alguma chave de compreensão dos trabalhos de artistas. Lemos sobre uma “poética dos corpos no espaço”, ou sobre “uma poética dos olhares”. A própria linguagem da crítica incorpora uma dinâmica em que o texto “acadêmico” (no seu sentido mais estrito) vai dando lugar a textos mais “poéticos” (no seu sentido mais livre). Escritos em que vemos o crítico se articular com o trabalho do artista na própria linguagem do seu discurso. As “poéticas” saem do controle conceitual aristotélico (para ficarmos apenas em um dos primeiros exemplos da busca de uma sistematização do fazer poético) e aportam no uso desabusado do adjetivo. Poético como complemento de qualidade, como suplemento do objeto em questão.

E assim, podemos ir muito além da pergunta-título: é possível falar hoje em dia de sonoridades experimentais sem termos a poesia como referencia estética? Como falar sobre repetições hipnóticas, camadas de sobreposição minimalistas de melodias, entrecruzamento de gêneros, tempos e espaços musicais, sem a tentação de traduzirmos tais experiências no âmbito do poético? Afinal, nossa sede de narrativa, mesmo que não aplique palavras nos sons instrumentais, nos faz imaginar histórias, fabulações em prosa sobre o que está se passando naquele espaço sonoro. Geralmente, são espécies de trilhas particulares de nossas vidas.

E que histórias podem emergir dos trabalhos de Lee Gamble, David Toop, Demdike Stare ou Stephen O’Malley? Prosas? Talvez. Poemas sonoros? Certamente. As palavras para definir o que é poesia se dissolvem em graves sensoriais, em audiomanias, em arquivos audiovisuais do terror. São poemas épicos, haicais, sonetos, versos livres das sonoridades de civilizações em todo o planeta.

E novamente, voltamos ao título. A pergunta que não têm uma resposta é, também, uma armadilha para quem escreve sobre ela. Sondar a poesia sonora sem a mediação das palavras é uma tarefa que, de certa forma, torna este texto inútil. A única forma de percebermos o poético — e a poesia — nos sons das Novas Frequências que se expandem pelo mundo e pelas ruas da cidade, é estar dentro deles, vê-los ao vivo. Se não usam palavras para demarcar seu espaço de criadores poéticos, estes músicos fazem com que a poesia não seja apenas o meio da escrita cursiva e ordenada do poema. Para não usarmos as palavras como mediação da poética sonora, temos que viver a experiência sensorial do próprio som. A poética do som é onde as palavras param de buscar um sentido único (ser poema) e se expandem para os outros sentidos (ser experiência).

Pesquisador e professor de Literatura e Artes Cênicas da PUC-Rio. Escreve livros, ensaios, artigos para periódicos, sites e outras mídias. Publica textos de forma bissexta desde 2009 no blog www.objetosimobjetonão.blogspot.com

 
Comments