New Music International Festival 2013. De 30/11 a 08/12.
Novas Frequências 2013

“Ouro do Porvir” por Ruy Gardnier

São bem evidentes as relações entre a música e a alquimia. Ambas dependem, num nível mais primário, da combinação de elementos para funcionar, simultaneamente ou na duração, e o objeto último, supremo, consiste na transmutação dos materiais — do metal vagabundo ao ouro ou, em expectativa mais modesta, de uma consecução de sons à construção de uma sensação, de uma experiência, de uma atmosfera. Ainda que isso seja válido para a música como um todo, a alquimia torna-se uma metáfora muito mais apta e urgente quando uma geração de músicos, ao invés da produção física dos sons — o toque numa tecla, numa corda, um sopro, uma emissão vocal —, trabalha tendo como matéria prima uma biblioteca sonora e as possibilidades de manipulação infinita desses materiais, seja por operações de hardware, seja pela sobreposição de duas ou mais amostras sonoras, seja pela própria evidência da deterioração dos itens sonoros sendo carcomidos pelo tempo, literalmente uma química do detrito.

Esses procedimentos todos estão no âmago de um tipo de alquimia sonora que tem papel vital na produção musical contemporânea, e que ao mesmo tempo é tão difícil de definir, de rotular: dark ambient, hauntology, hipnagogia, industrial ambient são todos termos incapazes de dar conta do processo de produção (do ponto de vista do gesto criador), dos objetivos (do ponto de vista das intenções dos artistas) e das recompensas (do ponto de vista do público) que estão em jogo quando se fala dessa música que é extremamente atmosférica e evocativa mas que não prescreve nenhum objeto muito preciso: as peças de Leyland Kirby com seu nome próprio ou como The Stranger prefiguram em seus títulos mundos desolados ou em dissolução, mas a música em si mesma revela “apenas” uma suntuosidade grave em meio a chiados pregnantes e melodias desgarradas; os samples que Lee Gamble extrai de seus cassetes de jungle produzidos ou coletados entre 1992 e 1996 e posteriormente processados só remetem muito longinquamente ao efusivo ritmo britânico do começo dos anos 90, preferindo reter e “loopar” as estases e os momentos de calmaria, ao contrário do breakbeat característico da época, o “amen break”; o duo Demdike Stare colige e processa sonoridades que vão do looping de canto ritual africano e da apropriação do drum’n’bass sobrepondo-os a timbres de música eletroacústica ou instalando-os em paredes de chiado ou registros de campo; Philip Jeck faz de suas vitrolas portáteis verdadeiros catalisadores alquímicos que reproduzem/deformam a mais banal das matérias primas, discos de vinil comuns.

O objetivo disso tudo é criar música ambiente? Não. É criar uma sonoridade pesada e soturna? Nem sempre. É remeter a um passado mais prodigioso? Não. Há nessas músicas, sim, um trabalho em que a bagagem cultural e a memória — talvez mais arquetípica do que cultural — exercem um papel decisivo, mas a proposta vai muito além da remissão e da sensação de nostalgia.

O que há de fundamental nessa música e que une todos esses artistas — e mais uma penca que não cabe aqui citar — é a busca por uma sonoridade que possa provocar a sensação de maravilhamento diante de algo intensamente estranho, uma entrada numa caverna escura, uma viagem a um país desconhecido ou o flerte com a atemporalidade absoluta: em resumo, tudo que remete a uma alteridade brutal com o presente e faça surgir paisagens sonoras fora do tempo. No mundo de hoje, em que vivemos com um excesso de passado (a mediateca do globo a um clique de distância) e em que o presente intensivo do consumo tecnológico substituiu as aspirações futuristas da sociedade, cabe à música de biblioteca, à música feita a partir da matéria prima do próprio passado, evocar novas aspirações de futuro, de desconhecido, de nova dimensão a ser rompida (para usar vocabulário da ficção científica, essa grande criadora de imaginário futurista no século XX). E eles nos dizem: o futuro não é a assepsia dos Jetsons, é a mestiçagem e o entrecruzamento desavergonhado de itens de culturas antagônicas, é o uso do ruído do material como item expressivo, o arquivamento e o colecionismo como gestos ativos e criativos. Tudo para nos raptar das percepções intramundanas e nos fazer vislumbrar um outro mundo através de psicodelia via curto-circuito temporal ou sobreposição referencial. Ao ouro!

Crítico e pesquisador. É criador das revistas eletrônicas Contracampo e Camarilha dos Quatro, trabalha como crítico de cinema para o jornal O Globo e como pesquisador do acervo audiovisual do Circo Voador. Editou catálogos para mostras retrospectivas dos cineastas John Ford, Samuel Fuller, Abel Ferrara, Rogério Sganzerla e Julio Bressane, entre outras

 

 
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