New Music International Festival 2013. De 30/11 a 08/12.
Novas Frequências 2013

“Por Uma Arte Confortável” por Denilson Lopes

Em uma de minhas viagens para Belo Horizonte, fui com dois amigos a uma instalação de Erneto Neto no Museu de Arte da Pampulha. Não me lembro se era da série chamada Casa, mas me lembro que passamos momentos que pareciam não passar, só deitados no que parecia ser um chão feito de uma substância macia, aconchegante como um gigantesco puff. Só conversarmos e ouvíamos os poucos passantes naquela tarde de meio de semana. Fiquei pensando comigo que Ernesto Neto poderia se aproximar mais da música, além das conhecidas festas que costuma dar. Estava pensando não numa música escapista, new age, nem no rock e na música eletrônica, que fascinados pelo ruído, pela dissonância, buscariam dar continuidade ao projeto de vanguarda, desde pelo menos o Futurismo, na busca pelo estranhamento, pelo incômodo que violenta o ouvido, massacra o corpo pela altura, exige que nos torne um corpo maquínico acelerado pela orgia do ritmo e/ou substâncias legais ou ilegais. Apesar da importância que o mundo dos ruídos significou ao ampliar os sentidos do som, para mim, ele apenas ecoava a tradição da revolução industrial, marcada pelo excesso de sons nas cidades e nas fábricas. Longe do ecologismo de Murray Schaffer, que fala de sons em extinção e da necessidade de preservar sons, como se estivéssemos em processo de “regressão auditiva” (Adorno), procuro um outro mundo, um outro som, não na fuga contracultural da natureza, mas neste mundo precário e violento que é o nosso mundo.

Este outro mundo me foi aberto pelos discos de Brian Eno que criam a expressão música ambiente e pelo livro Ocean of Sound de David Toop. Mas foi traduzido concretamente quando dentro de um club em Montreal, a música de bpms acelerados cessou, uma luz pálida e uniforme pairou sobre pessoas que sentavam, deitavam, conversavam baixo. Era uma pausa, parecia uma igreja? Não, mas os lounges em raves nos quais as pessoas capotavam pelo excesso de cansaço. The Orb tocou e foi a minha primeira e rara experiência com um grupo importante associado à música ambiente. Saí de lá tranquilo, nem era tão tarde. Não conheci ninguém. Estavá só, mas com a mesma sensação de repouso, de conforto e pertencimento que sentira na instalação de Ernesto Neto e quando ouvi “By This River” de Brian Eno pela primeira vez. Não se tratava de dormir, relaxar, de estar ausente, mas de estar presente, sem ansiedade, sem o frenesi de comunicar, de estar conectado a tudo e a todos.

Mesmo nesse mundo povoado por encontros fugazes, máquinas que nos solicitam, agridem, provocam, eu pensava que o conforto poderia ser um valor a ser resgatado. Um outro corpo que se dissolvia na lentidão, na suavidade, poderia ser conquistado. Não se tratava de atualizar o panteísmo romântico de se integrar ao mundo — no caso deles, a natureza —, mas de se deixar possuir por impressões, sensações, não mais sentir o “eu”, mas ser atravessado pelo mundo. O que surge não vem de mim, do que ouço, do que vejo, vem do encontro, o que Gilles Deleuze e Félix Guattari chamaram de afetos e perceptos. Se o mundo burguês separou natureza e cultura para que pudéssemos contemplar, manipular e conquistar o mundo, trata-se de imergimos num mundo que nunca deixou de ser nosso, e somos nele de forma singular e nele nos dissolvemos.

Um gesto para o menos e para o menor quando tudo parece ser maximalista e excessivo. O menos está na ética minimalista e não tanto no Minimalismo como um movimento bem marcado sobretudo na artes visuais dos anos 60 que se desdobra sobretudo para música e um pouco para a literatura. Não tanto uma recusa do excesso barroco e consumista de objetos em favor de uma encenação pobre e realista, contida e desdramatizada. Mas sobretudo diante do excesso de informação, discretamente recusar e olhar para outra direção, como Roland Barthes em O Prazer do Texto. Um gesto não tanto para o choque, a ruptura, o confronto, a revolta, a revolução, privilegiadas pela arte de vanguarda diante da arte burguesa, tida como convencional, culinária e talvez confortável. E de resto, atitudes, em grande parte, assimiladas pelos meios de comunicação de massa.

Um gesto não para algo retumbante, épico, heróico, mas em direção às pequenas percepções que nos constituem como singulares, anônimos, desconhecidos. A música ambiente nos afasta da cultura das celebridades. Não é à toa que Brian Eno, quando deixou de ser rock star vinculado ao Roxy Music ou em carreira solo, retirou seu rosto e sua voz dos trabalhos que começou a fazer a partir de Ambient 1: Music for Airports. Como estar no mundo, ser o que se é sem precisar se afirmar em alto som o todo tempo. Ao invés do artista celebridade, de virtuoses da voz ou do instrumento, de divas ou estrelas, a música ambiente se encaminha para um artista e um ouvinte discretos. Ambos não se colocam em primeiro plano, tal como a música que Satie pretendia fazer. Ou como um móvel. Algo para estar em segundo plano.

Por fim, o conforto a ser buscado não é a aceitação pura e simples de convenções. Já que a vanguarda e a experimentação privilegiaram tanto o choque, a ruptura, o confronto e a agressão, parece que o conforto estaria destinado a uma arte burguesa e convencional. Mas com o declínio da vanguarda, talvez o conforto possa ser revisto.


Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, pesquisador do CNPq e autor de No coração do mundo: paisagens transculturais (2012), A delicadeza: estética, experiência e paisagens (2005), O homem que amava rapazes e outros ensaios (2002) e Nós os mortos: melancolia e neo-barroco (1999)

 
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