New Music International Festival 2013. De 30/11 a 08/12.
Novas Frequências 2013

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A música acontece na linguagem. Na infinidade de gêneros e denominações, passando por conceitos, ideias semi-ditas e estrangeirismos, é no dizer que se constrói universos culturais. As denominações e as falas são o nosso gosto, sempre moldáveis. Em particular na eletrônica, onde os amantes desse som mutante e sem fim estão sempre envoltos em termos que o definem como campo cultural, trazendo seus desdobramentos estéticos e comportamentais. Faz tempo já que um forte sentimento do REVIVAL habita o dialeto e o inconsciente dessa música, com sinônimos como vintage e nostalgia sendo bastante citados.

Na eletrônica de hoje, revivals de passados nada distantes servem cada vez mais como mote para a criação musical. Acho curioso quando essa referência ao passado é velada, negada ou ironizada, numa tentativa paradoxal de estabelecer uma identidade multifacetada. Trata-se de um conflito que às vezes leva à rápida autodestruição da palavra. Porque, posta à prova, uma ideia que se esgota na denominação perde o charme da abstração e se vulgariza — note como “dubstep”, como gênero, é um nome veementemente refutado por seus próprios criadores, artistas e grande parte do público crítico.

Essa ligação temporal que molda o vértice linguagem versus estética é neurótica e traz gêneros fantasmagóricos como hypnagogic pop, em que o passado é um assombro caudaloso difícil de ser superado, já que é um fetiche. Não à toa é comum sentir um prazer quase instintivo ao ouvir a música que marcou nosso tempo de criança. Se você tem cerca de 30 anos e gosta da levada synth-pop 80’s de gringos como Ariel Pink’s Haunted Graffiti ou dos cariocas do Dorgas, você vai entender a sensação. Freud explica.

Essas dinâmicas encontram eco em teorias vanguardistas e pós-modernistas. Um livro bastante citado nos estudos culturais é “A Condição Pós-Moderna” (1989), em que o intelectual inglês David Harvey pontua que desde as revoluções dos anos 60, a estética tornou-se algo acima do bem e do mal, e a busca sem fim às referências passadas é essencial para abastecer a produção fragmentada da pós-modernidade. Essa visão materialista (e pessimista) da nostalgia traz uma condição humana: as pessoas se agarram a elementos afetivos do passado para sobreviver a um tempo de excessos e de efemeridade cultural. É a velha história do “antigamente as coisas eram muito melhores”. Melhores por que as opções eram mais simples e dadas, ou por que, quando criança, nossa mente estava livre de controle e critérios?

Artista do Novas Frequências 2013, o produtor Babe, Terror desenterra trechos de VHS e fitas K7 de uma infância simples e bonita na capital paulista — um de seus codinomes é justamente Perdizes Dream. Mas essa memória é cheia de chiados, submersa numa música pesada e que tem o constante movimento de um rio, que parece levar para cada vez mais longe todas as sensações gostosas de ontem. Vivemos num tempo tão rápido e difícil de ser apreciado ou explanado, que nossa aura não consegue largar o cordão umbilical das primeiras referências que absorvemos? Ou o futuro já foi tão imaginado que nossa criatividade só consegue processar elementos da memória? Não sei a resposta, mas espero que esteja tudo bem com a cabeça e a vida do músico Leyland Kirby, o The Caretaker, que faz lindos LPs inspirados na mente de quem tem Alzheimer (um sintoma maravilhoso disso é o título do LP An Empty Bliss Beyond This World).

Todos esses aspectos são difíceis de serem superados — o passado está aí e é um monolito gigante. O crítico inglês Simon Reynolds mais apresenta o diagnóstico do que receita a cura para o que ele chama de Retromania. Talvez com a tal fragmentação da pós-modernidade, nossa cultura se volte para dentro, encontrando esses sentimentos nostálgicos, como “pureza”. E na eletrônica, tão associada de imediato com a “club/dance music” e o hedonismo sem fim de beats e refrões imperativos feel it, é bom ter um pouco desses sentimentos e estéticas tão complicadas de entender e, acima de tudo, denominar.

Curador do deepbeep.com.br, jornalista e retromaníaco como você.


Animal Collective, No Age, Tv On The Radio, Bodies Of Water, Beach House, etc. Essas são algumas das bandas que o projeto do paulista do bairro de perdizes Cláudio Szynkier, mais conhecido como Babe, Terror, já foi comparado.

Babe apareceu pro mundo quando foi tema de um post no fim de junho do crítico de música da New Yorker Sasha Frere-Jones, para quem contou que deu início ao projeto em 2008, num intuito de “atender e dar sentido à esses estágio de sua vida”. Daí angariou fãs como o crítico do Guardian, Alan McGee; o Site Pitchfork; a revista Uncut; e Lucio Ribeiro do Popload.

Descrito por McGee como “a volta barulhenta da Tropicália”, Babe tem ecos do novo folk e lo-fi americanos, com a mesma atmosfera das canções de gente como Ariel Pink e James Ferraro no começo de carreira. Hoje os termos que usaríamos para definir Babe seriam: “hypnagogic pop” e “Hauntology”. Suas músicas soam como fitas cassetes antigas, danificadas e mofadas que quando tocadas entram em loops eternos e criam texturas sonoras estranhas. O Jornalista Lucio Ribeiro descreve da seguinte forma o som de Babe:

Para resumir, imagina uns zumbis de “Walking Dead” se escondendo nas catacumbas de um clube de Berlin e de repente encontram umas picapes e tentam tocar, com mãos e mexendo em todos os botões ao mesmo tempo. Sairia, talvez, um som tipo o que o Babe, Terror faz.

Apesar de ser cada vez mais reconhecido no mercado exterior, (gente como four tet já remixou o cara) Babe não é muito conhecido por terras brasileiras. Não é a toa que, só tocou “uma ou outra vez” em SP e no Rio de Janeiro esse será o seu primeiro show. Agora é esperar pra ver qual mistério Babe, Terror está guardando para sua apresentação no Novas Frequências.

Babe, Terror toca dia 08/12 no Oi Futuro Ipanema


Projeto do paulista Claudio Szynkier, o Babe, Terro, lançou em outubro o clipe para “Damascus School-Smooth-Talkers”, música que está em seu último disco, College Clash. Dirigido pelo artista visual brasileiro Felipe Miguel, o vídeo é um viagem de Lamborghini por um mundo de glitches, Windowns 98, filmes velhos e jogos de corrida futuristas.