New Music International Festival 2013. De 30/11 a 08/12.
Novas Frequências 2013

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Não é novidade: o Brasil pouco sabe do que se passa para além do litoral e dos grandes centros. “Hoje, depois de sete anos de luta inglória, descobrimos que sempre nos faltou um requisito essencial: a honestidade. O que continua não querendo dizer nada. Se a gente se descobriu caipira um dia, não quer dizer que a gente vá ser o caipira que as pessoas se acostumaram a ver em festa de São João; aquilo é caipira de televisão paulista. Se a gente se descobriu rock, não quer dizer que a gente use lambreta, casaco de couro e cante ‘Long Tall Sally’ o dia inteiro.” Essa fala poderia ser a de um artista de música eletrônica da atualidade, como um Fudisterik ou um Paulo Dandrea, mas é Zé Rodrix, no início dos anos 1970, em uma entrevista ao heróico O Bondinho. Os “caipiras” continuam surpreendendo.

No caso, quando pensamos em música eletrônica brasileira do interior, quase que imediatamente, e somente em um aguerrido grupo de iniciados, pensamos em Zé Rolê e sua persona Psilosamples* (mas não só, já que o produtor do Sul de Minas se traveste em personas variadas de tempos em tempos), o auto-intitulado “Príncipe da Roça”. (nota mental: a ironia maior é que muitos desses artistas vivem/viveram no interior, mas em cidades com perfis industriais, urbano). Porém, como se verifica entre os artistas citados até aqui e entre uma dezena de outros bons nomes, é curioso que realmente haja uma certa unidade, mais de pensamento do que de resultados, na produção da música eletrônica do interior do Brasil. Daqui do meu ponto de vista pedestre mas relativamente atento e presente nesta “cena”, me parece que o tempo, tal qual percebido na vida no interior, é o que dá o contorno geral dessa produção. O tempo como um aliado, um parceiro, cuja relação é tranquila, parcimoniosa, e frequentemente se situa na esfera de um sonho ou de um delírio. “As coisas mudam no devagar depressa dos tempos”.**

Em um som como “Fake Treasure”, de Fudisterik, o beat é firme, mas são os elementos que vão se assomando ao fundo que dão a tônica, e, na maciota, quando você já não espera muito da faixa, ela vai se transmutando, ganha em gravidade, até que cai em um quase silêncio e retorna numa folia tímida, realizando aquela bruxaria que um Hermeto Paschoal realiza tão bem: transformar algo muito simples em algo novo, mágico. “Viver é etecetera”.

Já “Macaco Azul”, de Paulo Dandrea (incluída em uma das coletâneas Hy Brazil do Chico Dub), um som similar ao de uma sirene sugere alguma urgência de início, e a impressão tende a se perpetuar ao nos darmos conta que um beat alquebrado, defeituoso, vai carregando o som adiante. O clima da faixa vai se tornando mais leve, e a estranheza estabelecida no início se dissipa, já estamos totalmente dentro, pergunta-se inclusive porque tão pouco disso tudo — e esse “tudo” realmente é uma interrogação. “Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo”.

Em ambos os exemplos utilizados, o que se verifica são composições operando nas camadas e não necessariamente no pulso. O clima é a tônica — e é essa percepção dilatada, concretizada numa escolha sempre certeira de timbres que parecem conduzir a produção de Dandrea e Ricardo Cabral aka Fudisterik e, inclusive, a do Psilosamples. Curioso como essa leva de artistas, todos operando e se notabilizando na esfera da internet (“Por ‘Soundclouders’ fui acolhido. Ouço a internet e produzo aleatoriamente”, explica Dandrea), mantém uma relação quase nula com as “tendências” do momento. Isso já garante um não-lugar para eles, dado que, para o bem e para o mal, a grande maioria de artistas da música eletrônica atual tendem a uma relação exaustiva com o que é feito em tempo real. Eu não arriscaria um rótulo para enquadrar essa produção, ainda que a predileção por timbres, ambiências e harmonias nos sugira o desgastado IDM. Mas pra ficar em exemplo caseiro, poderíamos muito bem alocar isso tudo na esfera do que produziu uma rapaziada de uma esquina famosa em Belo Horizonte, não? “Cada um rema sozinho uma canoa que navega um rio diferente, mesmo parecendo que está pertinho.

Em 2011, Dandrea e Cabral se encontraram na internet: foi Dandrea inclusive que fez com que Cabral trocasse o programa FL Studio pelo Ableton Live. Desde então ambos expandiram seu universo de timbragens e harmonias sempre rumo a uma experiência de eterna descoberta e espanto. Mas o que me espanta mesmo é como as artes visuais nacionais ainda não descobriram todo este universo.

A amizade de ambos – e amizade nestas terras mágicas do interior do país é coisa seríssima – inevitavelmente deu em projeto novo: Detuned Portable Studio. Tudo ao alcance de um clique no Soundcloud, pronto pra embaralhar o movimento de seus neurônios. Recomenda-se escutar alto — seja no conforto de seu lar ou na pista vanguardista do Novas Frequências.

*A citação não é gratuita: foi Zé Rolê que convidou ambos para finalmente se apresentarem ao vivo, no primeiro semestre deste ano, na mítica Pouso Alegre, dentro do evento Aberto Audiovisual Livre
** Citações da obra de Guimarães Rosa, o bruxo-mór do interior brasileiro, o códice definitivo para entender as veredas desse grande sertão.

Arthur Dantas é mineiro de coração e como de praxe, tem o Rio de Janeiro como sua Pasárgada. Atualmente estuda gestão ambiental e faz ativismo político na região de Pouso Alegre. Escreve no arthurdantas.wordpress.com.


É dificil falar de Fudisterilk sem falar de Paulo Dandréa e vice versa. Por isso, decidimos apresentar o dois juntos. O primeiro é Ricardo Cabral, mineiro de 38 anos que reside na “terra onde a galinha cisca pra frente”, também conhecida como Matias Barbosa. Já o segundo é Paulo Dandréa, paulistano e dono de uma já extensa carreira como baixista das bandas Tarja Preta e Som Ambiente.

Dandréa começou a fazer música eletrônica em 2001, quando, diz ele, “descobriu o computador”. Já fudisterik, instalou o FL Studio em seu computador e dai começou a fazer algumas bricandeiras. Mas foi em 2011, depois que os dois começaram a se falar via internet, que Dandrea convenceu Ricardo a migrar pro Ableton Live e o ensinou as regras básicas de produção.

Dai em diante, os dois vem postando nos soundclouds da vida pirações psicodélicas eletrônicas recheadas de humor. Dandréa já lançou um disco: Pineapple, Fudisterik acumula quase 40 faixas em seu soundcloud e no começo desse anos os dois entraram para o terceiro volume da Hy Brasil,  coletânea criada pelo nosso curador Chico Dub. Essa identificação musical de um pelo outro é tão grande que em 2011 criaram um projeto em conjunto chamado Detuned Portable Studio.

Os dois tocam pela primeira vez no Rio de Janeiro na nossa festa, um encontro que tem tudo para ser no mínimo curioso e engraçado.

Ouça a playlist feita por Paulo Dandréa só com música deles dois:

- Fudisterik e Paulo Dandréa se apresentam dia 30/12 no La Paz Club