New Music International Festival 2013. De 30/11 a 08/12.
Novas Frequências 2013

“Em Todos Os Lugares, De Todas As Maneiras” por Mauro Gaspar

Pensar em exploração de limites, improvisação e liberdade na música é pensar em jazz. Depois de décadas de experimentação e radicalização progressivas, depois do bebop, do cool, da fase final de Coltrane, do free jazz de Ornette Coleman e de todos os outros que ou vieram na esteira ou já estavam no seu próprio caminho de experimentação sonora — Miles, Mingus, Monk, Sonny Rollins, Eric Dolphy, Pharoah Sanders, Sun Ra — a pergunta, no fim dos anos 60, era: para onde vai o jazz? Ou: o que ainda pode ser o jazz em termos de experimentação?

Quem pegou uma das bolas que rolavam foi o AMM, grupo de jazz inglês na ativa desde 1965. Ainda que desconhecido de boa parte do público geral, o AMM é responsável em larga medida pela expansão do free jazz europeu e pelo desenvolvimento da free improvisation — a improvisação livre, duas linhas de força que ganhariam corpo e se tornariam centrais para o jazz das décadas seguintes. Sem roteiro definido, vozes gravadas, silêncios, interferências barulhentas e dissonantes ou mais suaves e melodiosas, drones longos e envolventes, ou choques nervosos e abruptos, o AMM faz da liberdade absoluta o seu universo.

Da mesma época, buscando um caminho sem amarras, é o saxofonista de Chicago Roscoe Mitchell, personagem fundamental para o andamento do jazz como campo de inovações até hoje. Chamado por parte da crítica de “idiossincrático” e “iconoclasta” — o que em termos artísticos será sempre um elogio — por seu trabalho oscilante entre atonalismo, rigor, silêncio e explosões furiosas, Mitchell e seu Art Ensemble of Chicago são referências incontornáveis para o jazz interessado em confrontar seus limites.

A abertura completa e incorporadora de praticamente qualquer manifestação sonora aponta um caminho que é a própria gênese do jazz: seu princípio híbrido, mestiço, convergente. Mergulhar cada vez mais em outras formas como um modo de (re)descobrir a si mesmo. E ao longo desses mais de quarenta anos o jazz bebeu em todas as fontes e foi incorporado por todas elas também — as variações fusion do próprio jazz, o jazz-rock, o jazz-funk, o flerte com o hip-hop, o acid jazz, projetos como o Jazzmatazz de Guru, e inflexões mais comerciais como o US3. Mais interessante talvez tenha sido a relação maravilhosamente permissiva com formas em tese mais estranhas ao universo jazzístico como o punk, o noise, a música eletrônica mais contemporânea — como o drum’n’bass anos 90 de LTJ Bukem, Roni Size, Goldie ou a variante mais distendida de Kruder & Dorfmeister. E, depois, o techno, o house, o glitch — e a apropriação que esses gêneros fizeram do jazz enquanto força criativa e libertadora e ambientação sonora.

Essa mistura permissiva de gêneros está na raiz de uma das cenas mais efervescentes e experimentadoras da música contemporânea, a de Chicago dos anos 90, da qual Roscoe Mitchell é padrinho e referência máxima. É de lá que sairá o trumpetista Rob Mazurek, espécie de multi-homem que ataca em frentes variadíssimas, seja com as expansões de camadas sonoras coloridas e intensas do seu São Paulo Underground, seja com o punk-noise neurótico do Mandarin Movie e diversos outros projetos centrados na experiência do som, na expressão do som, mais que em uma concepção fechada do que deve ser “a música”.

E uma chave para entender o interesse na convergência de fluxos e possibilidades sonoras que parece marcar não apenas o jazz contemporâneo, mas a música contemporânea mais experimental e inovadora, é justamente a ideia de “som”. Crucial para Mitchell, Mazurek e para a cena de Chicago — onde se combinava minimalismo com rock, peças gráficas com musique concrète, jazz com punk, techno com free jazz abstrato —, ela pauta boa parte dos trabalhos mais interessantes de hoje em dia. De Matana Roberts e Matthew Shipp à turma do jazz nórdico, como Mats Gustafsson, de John Zorn e seu Masada e Peter Brötzmann a Tortoise e Exploding Star Orchestra, passando por projetos de produtores de música eletrônica como o quarteto jazz de Vladislav Delay ou o trio de jazz experimental do qual participa com Moritz von Osvald, outro mestre das batidas eletrônicas.

A experiência, pura, quase transcendente, do “som” é o que marca também um dos grupos mais surpreendentes surgidos nos últimos anos, o Dawn of Midi. Trabalhando entre o improviso e sessões em que executam suas músicas “ao vivo”, o grupo parece representar uma dobra desses quarenta anos sobre si mesmos. Ao incorporar dúvida do caminho pós-anos 60, as bolas lançadas pelo AMM e por Roscoe Mitchell e as experiências para conjurar a força do som acústico e a liberdade da improvisação, com a espiral hipnótica da música eletrônica, o Dawn of Midi confirma porque o jazz continua sendo uma metonímia da liberdade de expressão musical.

Editor, jornalista e pesquisador, doutor em letras pela PUC-Rio. Coprodutor do “Manifesto Sampler”, editou e organizou, entre outras publicações, os volumes 4, 5 e 6 da série Hans Ulrich Obrist Entrevista, da editora Cobogó.

 
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