New Music International Festival 2013. De 30/11 a 08/12.
Novas Frequências 2013

“Para Uma Compreensão Espacial do Ruído”* por J-P Caron

“A música oferece um mundo e habitabilidade. O ruído oferece algo como a matéria escura que há de ser aquilo que permite uma estrutura para que todo o resto exista.” (Paul Hegarty. Noise/Music: a history, p.139)

Os dois modelos, do espaço como vazio e do espaço como pleno, configurariam duas metafísicasda música implícitas em sua prática. O primeiro propondo a diferença claramente marcada entre sons e ruídos como fundamento da seleção de objetos musicais passíveis de articulação. Na medida em que a composição acústica dos sons é determinante para a sua ordenação, sons serão escolhidos com maior afinidade harmônica com os outros. O segundo modelo redefiniria os papéis do som e do ruído, colocando o último como uma diferença de grau em relação ao som e, mesmo se mantivermos a noção corrente de ruído dada pela acústica como uma conformação sonora inarmônica, este se torna o fundamento de todas as articulações possíveis. Aqui reencontramos a expressão de Hegarty (2007), do ruído como “matéria escura que há de fornecer uma estrutura para que todo o resto exista”.

Poderíamos nos perguntar se as considerações acima teriam qualquer importância para a música de ruídos enquanto tal. Afinal, os produtores de noise não são filósofos perguntando por condições de identificação de particulares, tampouco são compositores na tradição do Ocidente, procurando por meios teóricos a fim de justificar academica ou cientificamente a sua prática. Meu amigo Zbigniew Karkowski uma vez disse: “Dizer que fazemos música séria sugere uma abordagem científica rigorosa, enquanto do outro lado do espectro, o noise japonês, que no entanto não é uma música popular comercial, é uma forma de expressão que é praticada sem que ninguém no Japão escreva uma linha ou formule uma questão sequer sobre o interesse de fazê-lo. É como se o noise tivesse revelado, sem o saber, uma lacuna entre a teoria e a prática, o Janus inconsciente da experiência de concerto.” (…)

Apesar disso, somos sempre influenciados pelos conceitos que usamos, e se entendemos a função dos conceitos na agência humana desta maneira, a pesquisa filosófica não mais parece tão distante da prática. Penso que a adoção de uma outra maneira de observar o fenômeno pode influenciar nossos modos de escutar a música. Até aqui este argumento justifica prospectivamente a relevância das reflexões propostas. Mas são elas relevantes agora?

Uma vez que o ruído passa não mais a ser definido negativamente, ele corre certamente o risco de perder seus contornos mais ideológicos, enquanto símbolo de revolta e ruptura, por outro lado, nós passamos a estar mais capacitados a entender o universo sonoro específico articulado nas produções noise. Uma vez que ruído é som, estamos agora obrigados a entendê-lo e aceitá-lo, tentando reconhecer em seu interior seus padrões e organização específicos.

Sob este ponto de vista, o aporte da tecnologia tal como trabalhado por grande parte dos músicos noise parece inverter a proposta de Hegarty, da música como propondo um mundo habitável. Se os espaços articulados pelo noise nos parecem impenetráveis como atmosferas densas de planetas distantes (como na frase de Stefan George, musicada por Schoenberg “Ich fühle Luft von anderen Planeten”), essa música é habitada em performance. Na medida em que o gesto físico de tocar os equipamentos vão gerando novas e novas configurações, a ação do músico se torna também uma forma de habitação desses espaços, que vão sendo modulados em tempo real, em constante diálogo com os espaços nos quais se vê inserido no aqui e no agora. O uso de altas densidades e amplitudes revela uma vontade de habitar o som, na medida em que este não se revela mais como um componente de um mundo outro, diverso do mundo físico, a ser apreendido pela inteligência unicamente. O som passa a ser percebido como uma presença física, que condiciona nossos modos de acessar os espaços percebidos. Não só o espaço intrínseco da organização sonora é criado pelas densidades geradas em performance, mas a própria percepção do espaço físico empírico de performance se vê modulado pelos sons.

Necessariamente se trata aqui de um fracasso. Pois a intervenção do ruído no espaço empírico permanece incapaz de modificá-lo fisicamente. Mas o vetor permance. Noise é um fracasso, uma tentativa de transbordamento do espaço musical por meio tanto da amplificação extrema quanto dos materiais utilizados. O músico noise habita, juntamente com o público, os ambientes que ele mesmo cria.

*Excerto do artigo publicado originalmente em Resonances: Noise and Contemporary Music (Bloomsbury Academic, 2013), editado por Michael Goddard, Benjamin Halligan e Nicola Spelman (em inglês).

Compositor, filósofo e noiseiro, integrante dos projetos –notyesus> (com Rafael Sarpa) e Epilepsia (com Henrique Iwao).

 
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